Agir sob pressão: dimensões socioemocionais da cultura de segurança
Introdução
A literatura sobre segurança contra incêndios costuma enfatizar normas técnicas, procedimentos e infraestrutura.
Entretanto, situações críticas raramente são resolvidas apenas com conhecimento declarativo; elas exigem competências socioemocionais — autocontrole, empatia, comunicação, tomada de decisão rápida — que sustentam uma cultura preventiva sólida (REASON, 1997; GULDENMUND, 2000).
Ao propor a disciplina Prevenção e Combate a Incêndios no curso técnico integrado em Meio Ambiente, é imprescindível alinhar conteúdos técnicos às dimensões afetivas e relacionais do agir sob pressão, em consonância com a Base Nacional Comum Curricular.
1 Segurança como construção socioemocional

Para Reason (1997), falhas organizacionais derivam tanto de erros ativos quanto de condições latentes associadas à cultura.
O equilíbrio emocional dos agentes é uma dessas condições: medo, pânico ou excesso de confiança distorcem a percepção de risco e precipitam decisões errôneas (COOPER, 2000).
Goleman (1995) mostrou que inteligência emocional contribui decisivamente para o desempenho em situações de alta demanda cognitiva, argumento reforçado por estudos com brigadas escolares (GRAEFF; RODRIGUES, 2019).
2 Estratégias pedagógicas para desenvolver competências socioemocionais

- Simulações realistas
Exercícios de evacuação sem aviso prévio estimulam a autorregulação fisiológica e a tomada de decisões rápidas (IT CBMMG 04/2019). Ao final, um debriefing coletivo permite analisar emoções vivenciadas, reconhecendo acertos e fragilidades. - Dinâmicas de role-play
Situações fictícias — por exemplo, escolher quem deve operar o hidrante quando o líder está ausente — exercitam empatia, negociação e liderança colaborativa (TRIPP, 2005). - Jornal reflexivo
Após cada prática, discentes registram sensações, medos e estratégias de enfrentamento; o professor utiliza rubricas para avaliar progresso socioemocional (FREIRE, 1996). - Feedback 360°
Observadores externos (docentes de outras disciplinas ou bombeiros convidados) oferecem retorno, favorecendo a análise e a construção da eficácia coletiva (BANDURA, 2000).
3 Integração curricular com a BNCC

A BNCC (2018) destaca a necessidade de “agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação”. Na formação técnica, isso implica:
-
Autonomia – interpretar sinais de alarme e escolher o agente extintor adequado sem aguardar ordens superiores.
-
Responsabilidade – zelar pelo próprio bem-estar e pelo dos colegas, cientes da interdependência humano-técnica (LATOUR, 2020).
-
Resiliência – manter a calma diante de falhas.
-
Determinação – insistir no protocolo, mesmo sob pressão de pares para cortar etapas (SAITO, 2021).
4 Avaliação formativa das dimensões socioemocionais

Graeff e Rodrigues (2019) sugerem que a mensuração da cultura de segurança em simulados de incêndio transcenda a mera contabilização de acertos técnicos, incorporando indicadores processuais e relacionais:
(i) tempo de resposta, entendido como o intervalo entre a detecção do foco e a execução da primeira ação eficaz;
(ii) clareza de comunicação, avaliada pela precisão das instruções verbais e gestuais emitidas sob ruído ambiental; e
(iii) capacidade de cooperação, aferida pela fluidez da coordenação coletiva e pela equidade na distribuição de tarefas.
Para robustecer essa avaliação, os autores recomendam triangulá-la com escalas psicométricas padronizadas, tais como instrumentos de autorregulação emocional e empatia que apresentem coeficiente de fidedignidade (α de Cronbach) igual ou superior a 0,70, conforme diretrizes da OECD (2018).
Ao articular métricas objetivas de desempenho com medidas subjetivas de competência socioemocional, cria-se um ciclo avaliativo contínuo que retroalimenta o planejamento pedagógico e reafirma a segurança como um processo sistêmico e permanente, em vez de um evento pontual.
5 Conclusão
Em suma, forjar uma cultura de segurança resiliente às pressões extremas exige costurar, no mesmo tecido pedagógico, rigor técnico, inteligência socioemocional e consciência sociotécnica — rompendo, assim, a cisão entre “saber” e “sentir” criticada por Freire (1996) e aprofundada nas reflexões de Latour (2020) sobre a interdependência entre humanos, artefatos e ambiente.
Quando a disciplina de Prevenção e Combate a Incêndios integra procedimentos normativos, práticas colaborativas e exercícios de autorregulação emocional, ela não apenas transmite protocolos: cultiva profissionais capazes de decidir com lucidez, coordenar-se com solidariedade e executar com eficácia nos escassos segundos que separam o risco da tragédia.
Dessa forma, a formação técnica deixa de ser fragmentada e passa a constituir um território omnilateral de aprendizagem contínua, no qual cada gesto — do alarme inicial ao rescaldo final — expressa e fortalece uma ética coletiva voltada à preservação da vida.
Agora vamos ao nosso Quiz!
Resultados
#1. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) prevê o desenvolvimento de competências socioemocionais sobretudo na:
#2. Para Reason (1997), as falhas organizacionais em segurança resultam principalmente de:
#3. O indicador de cultura de segurança que mede o intervalo entre a detecção do foco de incêndio e a primeira ação eficaz é denominado:
#4. Nas dinâmicas de role-play descritas no artigo, o principal objetivo pedagógico é exercitar:
#5. O debriefing realizado após simulações realistas serve para:
#6. Escalas psicométricas utilizadas para mensurar autorregulação e empatia devem apresentar coeficiente α de Cronbach mínimo de:
#7. A estratégia avaliativa que envolve observadores externos oferecendo retorno estruturado é conhecida como:
#8. Autonomia, responsabilidade, flexibilidade e determinação são apresentados no artigo como elementos ligados a:
#9. O recurso pedagógico que incentiva estudantes a registrar sensações, medos e estratégias após cada prática é o(a):
#10. A ideia de que “segurança é processo, não evento isolado” é reforçada no artigo pela:
Referências Bibliográficas
BANDURA, Albert. Auto-eficácia: A construção do sentimento de competência. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.
BNCC. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
COOPER, Dominic. Safety culture: A model for understanding and quantifying a difficult concept. Professional Safety, v. 45, n. 6, p. 30-36, 2000.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GOLEMAN, Daniel. Emotional Intelligence: Why it can matter more than IQ. New York: Bantam Books, 1995.
GRAEFF, Tarcísio; RODRIGUES, Alberto. Educação para a prevenção de incêndios em escolas técnicas. Revista Brasileira de Segurança, v. 14, n. 2, p. 55-72, 2019.
GULDENMUND, F. W. The nature of safety culture: A review of theory and research. Safety Science, v. 34, n. 1-3, p. 215-257, 2000.
IT CBMMG 04/2019. Instrução Técnica 04: Simulação de incêndio em edificações escolares. Belo Horizonte: Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, 2019.
LATOUR, Bruno. Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. São Paulo: Editora Ubu, 2020.
OECD. Social and Emotional Skills for Better Lives. Paris: OECD Publishing, 2018.
REASON, James. Managing the Risks of Organizational Accidents. Aldershot: Ashgate, 1997.
SAITO, Kohei. Capital in the Anthropocene. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.
TRIPP, David. Critical Incidents in Teaching: Developing professional judgement. 2. ed. London: Routledge, 2005.


