O Papel da Formação Omnilateral na Cultura de Segurança

Introdução

Os trágicos incêndios que atingiram edificações, florestas e patrimônios culturais no Brasil nas últimas décadas expõem a fragilidade de uma cultura de segurança ainda incipiente.

Embora avanços tecnológicos tenham possibilitado meios sofisticados de detecção e combate ao fogo, a ausência de uma percepção crítica e integral sobre os riscos mantém a vulnerabilidade social (MINAYO; ASSIS; SOUZA, 2005).

É nesse ponto que a concepção de formação omnilateral — entendida como o desenvolvimento pleno, técnico‑científico, ético, estético e político do ser humano — revela seu potencial para fortalecer práticas preventivas e solidárias.

O que é formação omnilateral?

A noção de omnilateralidade tem raízes no marxismo humanista e foi apropriada pela Educação Profissional e Tecnológica (EPT) brasileira para superar a fragmentação entre trabalho intelectual e manual.

Ela propõe uma formação que articule saberes científicos, tecnológicos, artísticos e culturais, vinculando‑os às necessidades sociais concretas (CIAVATTA; FRIGOTTO; RAMOS, 2014).

Estudos sobre o Ensino Médio Integrado apontam que essa perspectiva amplia as possibilidades de aprendizagem crítica e emancipatória, proporcionando aos estudantes uma visão sistêmica dos processos produtivos e dos riscos associados a eles (FONSECA MEIRELES et al., 2024).

Formação omnilateral e cultura de segurança

A cultura de segurança depende não apenas de procedimentos normativos, mas da internalização de valores cooperativos, do reconhecimento da interdependência entre humanos, técnicas e meio ambiente e do domínio de competências para agir em contextos de risco (GRAEFF; RODRIGUES, 2019).

A formação omnilateral:

  1. Integra dimensões técnicas e políticas — ao estimular o domínio de conteúdos de prevenção (normas, sistemas de proteção) articulados à reflexão crítica sobre desigualdades e responsabilidades socioambientais (GIANNINI; MARTINS, 2020).

  2. Resgata o trabalho como princípio educativo — aproximando teoria e prática em laboratórios, projetos interdisciplinares e vivências simuladas de emergência, o que favorece aprendizagens significativas sobre autoproteção e cuidado coletivo (BRASIL, 2017).

  3. Valoriza redes sociotécnicas — em consonância com Latour (2004), entende incêndios como eventos que evidenciam falhas em redes de atores humanos e não‑humanos; logo, a cultura de segurança exige negociação contínua entre ciência, tecnologia e sociedade.

  4. Estimula a ética do cuidado planetário — dialogando com Saito (2018) ao articular crítica ecossocialista e sustentabilidade; incêndios florestais, por exemplo, são analisados como expressão de contradições entre capital e natureza.

 

Estratégias pedagógicas para promover cultura de segurança omnilateral

Projetos integradores – Envolvem o desenvolvimento de protótipos de sistemas de alarme, visitas técnicas ao Corpo de Bombeiros e análises detalhadas de incêndios reais. Essa aproximação entre teoria e prática estimula a motivação dos estudantes e reforça a aprendizagem significativa sobre prevenção e combate ao fogo.

Estudos de caso multissituados – Consistem em debates sobre acidentes emblemáticos, como o incêndio no Museu Nacional e a tragédia da Boate Kiss, analisados sob perspectivas sociotécnicas e ecológicas. Essa abordagem desperta consciência crítica, empatia social e compreensão dos fatores estruturais que tornam certos grupos mais vulneráveis.

Simulações e jogos sérios – Utilizam cenários virtuais de evacuação e combate a incêndios para treinar a tomada de decisão em situações de risco. Ao colocar estudantes em ambientes controlados que reproduzem a complexidade de emergências reais, essas atividades fortalecem habilidades técnicas e comportamentais essenciais à cultura de segurança.

Extensão comunitária – Inclui oficinas em escolas e bairros sobre prevenção de incêndios domésticos e florestais, realizadas pelos próprios estudantes. Além de difundir conhecimentos fundamentais para a autoproteção, essa estratégia promove o protagonismo estudantil e amplia o alcance social da formação omnilateral.

Essas estratégias dialogam com a pedagogia problematizadora de Freire (1996), ao transformar estudantes em sujeitos que investigam e transformam a realidade, e com a perspectiva omnilateral, ao unificar saberes teóricos e práticos (MEDEIROS et al., 2025).

Conclusão

Investir na formação omnilateral de estudantes e profissionais significa fortalecer uma cultura de segurança que ultrapassa o cumprimento formal de normas. Trata‑se de cultivar uma postura preventiva, colaborativa e ética, capaz de reconhecer a complexidade dos riscos e agir coletivamente para evitá‑los. Ao incorporar essa abordagem nos currículos — como propõe o projeto de inclusão da disciplina Prevenção e Combate a Incêndios no Curso Técnico Integrado em Meio Ambiente do IFTM — damos um passo decisivo para transformar a relação da sociedade com o fogo, ressignificando‑o de ameaça potencial a oportunidade de desenvolvimento sustentável e solidário.

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Resultados

#1. Segundo o artigo, qual é o principal objetivo da formação omnilateral?

#2. A cultura de segurança, de acordo com GRAEFF e RODRIGUES (2019), baseia‑se principalmente em:

#3. Qual autor é citado no artigo por relacionar a crítica ecossocialista à análise de incêndios florestais?

#4. A omnilateralidade foi incorporada pela Educação Profissional e Tecnológica brasileira para superar qual fragmentação?

#5. Qual das opções abaixo NÃO faz parte das estratégias pedagógicas propostas no artigo?

#6. No contexto da formação omnilateral, o trabalho é concebido como:

#7. Segundo Latour (2004), incêndios são compreendidos como:

#8. Qual documento oficial brasileiro é citado para sustentar a inclusão de temas de segurança nos currículos?

#9. A estratégia de extensão comunitária propõe, entre outras ações:

#10. Freire (1996) é mencionado no artigo para sustentar:

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Referências (ABNT)

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, MEC, 2017.

CIAVATTA, M.; FRIGOTTO, G.; RAMOS, M. (Org.). Ensino Médio integrado: concepção e contradições. São Paulo: Editora Cortez, 2014.

FONSECA MEIRELES, C. S.; COELHO CARDOSO, F. M. B.; SOUSA, M. M. O Ensino Médio Integrado: concepções, práticas e possibilidades de formação omnilateral. Revista Brasileira da Educação Profissional e Tecnológica, 2024.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GIANNINI, R.; MARTINS, M. Bibliotecas como agentes contra‑hegemônicos na formação crítica. Revista Ibero‑Americana de Educação, v. 83, n. 2, p. 205‑224, 2020.

GRAEFF, E.; RODRIGUES, C. Cultura de prevenção: a educação como estratégia central. Revista Segurança & Trabalho, v. 41, p. 12‑23, 2019.

LATOUR, B. Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. Bauru: EDUSC, 2004.

LATOUR, B. Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. Bauru: EDUSC, 2020.

MEDEIROS, K. R. R. et al. A perspectiva omnilateral e politécnica no Ensino Médio integrado. Revista Formação Técnica, 2025.

SAITO, K. O ecossocialismo de Karl Marx: capitalismo, natureza e a crítica inacabada à economia política. Rio de Janeiro: Boitempo, 2018.